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domingo, 30 de julho de 2017

Em nome de Deus

domingo, julho 30, 2017
Foto por: Gabriel Jacobsen - 07/09/2014, Porto Alegre - leia mais clicando (aqui)


"A maquiagem forte esconde
os hematoma da alma.
 Fumando calma ela observa
os faróis que vem e vão."
- Emicida "Rua Augusta"



Hoje, no tradicional bairro do Bixiga, da capital paulistana, ouço o som de músicas italianas e aroma de queijo quente exala no estabelecimento. Estou em uma das cantinas coloridas da rua dos Ingleses, nesse bairro tradicionalmente italiano. Saio da Cantina, e entro no meu carro, observando o  céu sem ameaças de chuva, o que é um milagre para os meses de abril em São Paulo.

Sigo em direção ao bairro da Consolação, passando por túneis cheios de crianças dormindo em papelões finos, velhos bêbados e pervertidos correndo atrás das mulheres em situação de rua. Parando no semáforo, observo a cena que acontece no carro à minha esquerda: uma prostituta abordando o motorista. "Qualé, moço, só 10 reais o programa. Tá barato porque hoje é sexta." Dizia ela projetando seus lábios avermelhados para o motorista, que simplesmente fechou o vidro e foi embora. 

Aquela cena me intrigou ao ponto de mudar minha rota, me fazendo dar uma volta na cidade para dar tempo de refletir. "Vender o próprio corpo por 10 reais", sussurrei, tentando organizar as ideias e os pensamentos. Me aproximando dos arredores do Morumbi, passando pela comunidade de Paraisópolis, eis que a realidade cai na mente como chumbo. 

Concluo que é muito fácil do lugar onde estou, dirigindo o carro do ano, currículo formado pelas melhores escolas no exterior, cursando medicina na USP, apartamento no Itaim e casa de praia em São Vicente, não senti qualquer empatia por aquela mulher. Isso me motiva a questionar, onde eu estava esse tempo todo que não pensava em histórias quais histórias estão por trás daquela moça, das crianças do túnel , dos subúrbios e dos necessitados.

Mudo meu destino, desisto da Consolação e volto ao Bixiga para solicitar um prato de penne ao molho, mas também desisto disso porque até a fome eu perdi. Desisti do encontro verde amarelo e voltei pra casa. Entrando no meu apartamento, ligo a TV em algum canal noticiário que transmite além de notícias horríveis como coincidentemente uma prostituta esfaqueada, a manifestação verde e amarela na Avenida Paulista. 

Tento não morrer de remorso, pensando que por um segundo eu estaria comungando na mesma missa que aquelas pessoas brancas com seus relógios suíços e calçados produzidos em mão de obra escrava.

Me deprimo pensando na falta de possibilidade de ser menos egoísta, desligo a TV constatando que as pessoas que ali sorriam para as câmeras são as mesmas pedindo muito mais além de patriotismo. O verde-amarelo se faz presente, solicitando intervenção militar para assassinar pessoas, cidadãos. Não só cidadãos comuns, como também, pessoas na mesma situação que as pessoas dos túneis e subúrbios. Assassinando cidadãos como a moça do semáforo e seu batom vermelho. Mas é tudo em nome de Deus. 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

ENEM: O filtro oficial da elitização da educação pública

sexta-feira, janeiro 20, 2017


Raios. Relâmpagos. Trovões.
Gritos e ranger de dentes.
Babado, gritaria e confusão.

Três enunciados que definem exatamente o dia 18 de janeiro de 2017, dia do resultado do ENEM, que mais uma vez segue a tradição anual: milhares de notas zero, milhares de estudantes de baixa renda com nota insuficiente para entrar na tão famigerada universidade pública, gente chorando, comendo as próprias unhas porque um dos maiores medos é vestir o uniforme de praças de alimentação ou morrer de fome. Ah e não menos importante dos ritos: estudantes que passaram a vida toda em escolas privadas, classe média alta, garantindo suas vagas nas universidades públicas.

Eu, enquanto estudante do ensino público, eu não tenho outra opção que não seja concluir que o Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM, seja um gigantesco filtro parte de um processo chamado elitização do ensino público de qualidade.

Uma das grandes e maiores lendas urbanas desse país, é "Universidade Pública para todos". Não é para todos, é para quem teve condições - que deveriam ser direitos -é para quem teve o luxo de estudar. Já falei mais sobre isso nesse texto aqui.

Falando assim, parece texto dos anos 70, mas isso é BEM atual. Com uma taxa altíssima de analfabetos, um índice gigantesco de evasão no ensino fundamental e médio, não é de se esperar menos, estudantes do ensino público reprovados num exame que teoricamente foi feito para eles. Porque o ENEM  com cotas raciais e cotas de baixa renda, foi a carta capital para o ingresso dos menos favorecidos na universidade. Uma pena, que isso não foi suficiente.

Para completar, nosso atual ministro da fazenda, Henrique Meirelles, diz, que as reformas em tramitação e as reformas já aprovadas são necessárias para colocar o Brasil nos trilhos novamente. E claro, que teria uma réplica. Mas não foi uma simples réplica, e sim, de uma diretora do FMI, Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde que arrematou: "Não sei por que as pessoas não escutaram (que a desigualdade é nociva), mas, certamente, os economistas se revoltaram e disseram que não era problema deles. Inclusive na minha própria instituição, que agora se converteu para aceitar a importância da desigualdade social e a necessidade de estudá-la e promover políticas em resposta a ela" - (leia mais sobre aqui)

Não é lindo, como as coisas fluem nessa novela brasiliense? Uma queima de arquivo na nossa cara, resultados das instituições federais indo pro espaço em 2016 - artimanha para aprovar a medonha Reforma do Ensino Médio - e uma República decaindo cada vez mais sempre que vaza um ou mais áudios na mídia brasileira.

Esse novo período político tem cada vez mais dado as costas para a educação e promovendo um marketing glorioso para seus recursos de batalha, como o ENEM, usado como instrumento de filtragem para formar cidadãos graduados. Como se já não bastasse turmas de 45 pessoas, formarem 4 alunos.

Arrematando como sempre, digo que educação deveria ser um direito universal, mas isso nos parece cada vez mais distante nesse caos ensurdecedor que ecoa nos subúrbios e nos corredores das escolas públicas brasileiras.

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